O maior susto na minha vida!

maio 19, 2010 em Artigos, Diversas, Informações gerais por Balog

No último fim de semana tomei o maior susto da minha vida, quanto tive um diagnóstico preocupante após alguns exames.

Saí de casa no último sábado para curtir um fim de semana no Green Bike Park, estrear a nova pump-track que ajudei a construir na semana anterior e dar alguns saltos na pista de freeride.

Confiante com a bike e me sentindo à vontade na pista, saltei um gap de madeira que pede bastante velocidade e segui para um duplo com transfer para a direita. Era óbvio desde o início, que eu precisaria diminuir a velocidade para não passar a recepção. Mas o cálculo foi mal feito e o inevitável aconteceu. Passei por cima do guidão e dei de cabeça no chão.

O gap antes do rola

O gap antes do rola

Na hora, todos os músculos do pescoço e ombro doíam muito e eu senti que estava com pigarro na garganta, mas isso não chegou a me assustar.

Me ajudaram a levantar, tomei um anti-inflamatório, um banho quente e me enrolei para manter a musculatura aquecida. Quando passava a mão na região dolorida, sentia como se houvesse um tecido esponjoso por baixo da pele, o que me parecia algum tipo de processo inflamatório.

Apesar das dores, eu me sentia bem e decidi voltar para São Paulo dirigindo, parei para comer um sanduíche e segui direto para o hospital. Ainda no restaurante, minha namorada insistia que minha voz estava estranha, meio fanha e abafada. Para mim, era óbvio que o problema era ortopédico e um Raio-X iria dizer se e o que estava fora do lugar.

O ortopedista pegou o exame na mão, mexeu no meu pescoço novamente, disse que o meu caso não era ortopédico e que iria chamar um especialista. Provavelmente alguma via aérea havia se rompido e havia ar no meu tórax todo.  Fiquei vermelho, com calor, nervoso. Como assim?

Com a queda iminente, temos o costume de prender a respiração com os pulmões cheios. A pressão repentina que a pancada causou foi o suficiente para abrir um buraco no ponto mais fraco, assim como aconteceria com um saco de pão.

Durante 30 horas passei por um ortopedista, um cirurgião geral, um cirurgião de cabeça e pescoço e um cirurgião de tórax, fiz um raio-X, uma tomografia de cabeça, pescoço, cervical e tórax, e uma broncoscopia, que é basicamente uma endoscopia pelo sistema respiratório, entrando pelo nariz. Um detalhe importante, sem comer ou beber nada todo esse tempo.

Antes da tomografia que ia mostrar o tamanho do estrago. O humor ainda estava bom.

Após todos estes exames foi dado o veredito, eu estava com furo de aproximadamente 4mm na traquéia, próximo à bifurcação que leva aos pulmões. O intuito deste último exame que, por acaso, eu tive que fazer acordado, era definir como agir neste caso, pois havia duas possibilidades:

Tentar grampear a minha traquéia por dentro em uma segunda broncoscopia, ou, abrir o meu peito ao meio e fazer uma cirurgia bastante invasiva.

Eu estava com pneumotórax e pneumomediastino, ar fora do sistema respiratório que poderia causar uma infecção bastante séria.

Eu e toda a minha família estávamos assustadíssimos, eu estava muito bem para um caso que parecia tão grave. Falava, conversava, ria, dava opinião, tudo parecia uma loucura.

“Vamos tentar grampear” disse o especialista. Subi novamente para o centro cirúrgico e lá estava a mesma equipe que havia feito o primeiro procedimento. O anestesista novamente me disse “Marcel, você vai ter que me ajudar! Se eu apagar você, vamos ter que forçar a sua respiração e não podemos fazer isso. Você vai ter que ficar acordado.”

Um sedativo leve no soro e lá vem aquele tubo com quase 10mm de diâmetro entrando na minha garganta. A cada 2 ou 3cm percorridos eu sentia um líquido anestésico sendo espirrado lá dentro. Vontade de tossir, sensação de falta de ar, o barulho, tudo incomodava, e eu absolutamente acordado. Agora os grampos! Para garantir, vamos fechar com dois.

E agora, em meio a centenas de downhilleiros com titânio nos braços, pernas, ombros e outros membros, eu tinha dois grampos de titânio no meio do peito. Uma loucura!

Voltei para um box do pronto socorro para aguardar um quarto e, neste meio tempo, minha temperatura subiu, minha pressão foi para o espaço e a saturação de oxigênio caiu de 96 para 74%, mais um susto. Sem poder discordar, me mandaram para a UTI.  Por que eu fui ter febre?

Passei 20 horas sem TV, acompanhante ou qualquer coisa para fazer. Todos os pacientes dos outros quartos instáveis, entubados, e eu lá, me sentindo bem, acordado, esperando o tempo passar. Pelo menos, chegando lá, eu puder fazer uma refeição e matar quem estava me matando.

Agora no quarto eu penso no susto que tomei e no que poderia ter acontecido, como eu fui sortudo de o rompimento ter sido tão pequeno, de o pescoço estar no lugar e de os grampos terem funcionado. Hoje já é 4ª feira, amanha faço uma tomografia e devo ir pra casa na 6ª. Graças a D’us!

Semana que vem faço 23 anos e volto ao hospital para fazer mais uma broncoscopia e ter certeza de que está tudo cicatrizando como o previsto. Seria um ótimo presente!

Fica aqui um toque para todos. Sofri uma lesão que eu mesmo nunca tinha ouvido falar e que tem sintomas bastante claros. Pigarro, a voz estranha, a sensação de bolhas por baixo da pele ou até mesmo insuficiência respiratória.

Eu me salvei porque fui prudente e vim para o hospital. Espero que todos aqui tenham a mesma consciência e façam o mesmo quando sofrerem algum tipo de acidente ou pancada mais forte.

E pra quem acha que eu vou parar, logo mais estarei em cima da minha bike de novo, seja para ir trabalhar ou para voar nos fins de semana.