Entrevista Márcia Cury

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Publicado dia às 17:08 no canal Artigos, Informações gerais por Bortoletto

Márcia Cury | Foto: Arquivo Márcia

Márcia Cury | Foto: Arquivo Márcia

O mountain bike está crescendo mais do nunca a cada ano. Muito se sabe sobre equipamentos, técnicas de pilotagem e procedimentos de resgate e primeiros socorros. Tudo isto acaba se resumindo no que chamamos de evolução. As dificuldades já não são as mesmas da década passada quando o esporte teve início no país. Tudo era bem escasso para o downhill brasileiro e as informações sobre equipamentos, técnicas, pistas eram obtidas muitas vezes em fitas VHS onde figuras como John Tomac, Shaun Palmer, Nicolas Vouilloz, Steve Peat e Cedric Gracia eram as referências.

No Brasil muitos dos pilotos responsáveis pelo “Kickoff” da evolução do esporte ainda figuram no MTB e o XRides não teve dúvida em convidar a piloto Márcia Cury  para uma pequena prosa. A piloto de São José dos Campos, SP é considerada referência do downhill feminino na década de 90 tendo participado de provas internacionais nos EUA e Argentina e  também da categoria BMX.

Márcia, primeiramente muito obrigado pela oportunidade. Indo direto pro assunto, como foi seu início nas 2 rodas? Foi direto no downhill ou começou no XC como a maioria?

Bom, eu sempre quis fazer algum esporte que fosse mais comigo, algo mais individual. Eu dancei Balé por 20 anos por exemplo. Quando fiz 17 anos, eu pedi uma bike para meu pai como presente de aniversário e acabei ganhando…comecei a andar. Foi quando encontrei o Zoreia e mais uma turma que pedalava no bairro do Urbanova e eles começaram a me incentivar para competir, viviam dizendo: “Vamos correr, vamo aí…vamos competir”

Qual foi sua primeira competição? Isso foi quando?

Ah, foi uma competição de Slalom onde acabei fazendo uma descida super boa. Acabei descendo melhor que a Adriana Nascimento que já tinha patrocínio da Caloi, desci super bem. Depois desse dia peguei gosto e nunca mais parei. Isso foi em 91 e a partir disso uma galera de São José dos Campos começou a se destacar no Downhill.

Slalom: Marcia x Patrícia Loureiro

Slalom: Marcia x Patrícia Loureiro | Foto: Arquivo Márcia

E o BMX?

Bom, passei também pelo BMX que me deu muita técnica, nele você acaba pegando bastante malandragem.

Você acha que vinte anos de Balé te ajudou a pilotar a bike?

…(risos), uma coisa não tem nada a ver com outra, agora em termos de preparo físico e a desenvoltura com o esporte em geral, ai sim te deixa em uma condição boa.

BMX - Pura malandragem

BMX - Pura malandragem | Foto: Arquivo Márcia

Na década de 90, o dificuldade de se obter equipamento bom era um obstáculo por si só. Como era lidar com essa barreira?

Não era como hoje em dia que você compra de tudo. Naquela época tudo era muito pesado, joelheiras de skate, tudo muito grande. E não era só equipamento não, alimentação não tinha controle nenhum, não tinha treinador…, era tudo na raça mesmo.

Isso também nas corridas?

Não tinha tecnologia não,..(risos), o importante era chegar no downhill e se atirar, se jogar literalmente. O negócio era velocidade, descer o mais rápido possível ou seja, era uma loucura…bem diferente de hoje onde tem muitos pulos.

E a bike?

Começamos nas rígidas e daí apareceram as fulls. Coisa muito cara e top na época, pouquíssimas pessoas tinham e continuamos na raça mesmo.

Márcia e a intimidade com a velocidade

Márcia e a intimidade com a velocidade | Foto: Arquivo Márcia

E os treinos?

Treinávamos aqui na região de São José em São Francisco onde íamos para o Morro do Jorge. Lá a gente subia empurrando as bikes e carregando todo o equipamento. Muita das vezes descíamos até Monte Verde e voltávamos de noite encarando aquelas descidas cheias de pedra solta. Tenho certeza que minha base veio destas loucuras..(risos).

Uau, com tanto treino e perrengue o destaque deve ter começado a aparecer. Isto te ajudou a arrumar patrocínio?

Com certeza. Outro ponto importante é que a mulher por si só se destaca mais no downhill, que é um esporte bem masculino e com isso o patrocínio é mais rápido. Mulher geralmente tem medo das pedras, terra..(risos) e o pouco que se destaca acaba sendo muito como resultado final. Patrocínio para mulher é sempre mais fácil.

Márcia concentrada no que faz

Márcia concentrada no que faz

Já que você tocou em masculinidade, o preconceito a mais de 10 anos atraz deveria ser grande. Como você lidou com isso?

Algumas meninas faziam os tempos melhores que muitos homens e eles não admitiam. Existia sim muito preconceito e viemos para acabar com isso. Logo o respeito passou a ser muito grande e foi até engraçado porque acabou sendo um respeito que você nem imagina. Eu devo ao esporte parte do respeito conquistado das pessoas que me admiram.

Como foi sua participação nas provas internacionais? O Pan Americano, como foi sua participação?

Não, foi o LATINO Americano (risos). Olha, graças ao downhill eu viajei para vários lugares tanto aqui no Brasil como lá fora…foi uma conseqüência. Depois que comecei a competir, quando eu vi já estava indo para fora, foi rápido. O Mundial, o Latino Americano, eles foram bons pois até antes não tinha idéia de como era o nível brasileiro lá fora. No Latino Americano quando fiz minha primeira descida eu achei que alguém tinha sabotado minha bike, a marcha não passava…eu parei no meio do circuito e comecei a chorar, a primeira descida estava completamente descartada. Eu tinha direito a mais uma descida e fui…qdo cheguei lá embaixo a galera veio me dizendo que eu tinha ganhado, que eu ganhei (se empolga), que tinha feito o melhor tempo. Meu foi a melhor coisa da minha vida, a melhor sensação do mundo.

Nossa, que surpresa heimm!

É, a coisa foi minando, a bike quebrada, a pressão da corrida…e então a surpresa, demais.

Quem foram suas rivais aqui no Brasil?

Uhhh, aqui no Brasil diretamente foi a Patrícia Loureiro. O pessoal falava muito da Jaqueline Mourão e Adriana Nascimento que eram muito fortes. A Patrícia tinha a mesma característica minha nas descidas ao contrário da Adriana e da Jaqueline que eram fortes nas pernadas. Logo depois apareceu a Karina Bueno que hoje é uma das minhas melhores amigas e que na época também era minha rival nas pistas.

Quanto tempo você ficou praticando o lado extremo do MTB?

Competindo realmente foram 6 anos. Mas continuo andando até hoje, já faz mais de 20 anos. Agora é “Just for Fun”!

Nesse tempo todo você já teve alguma lesão séria? Algum acidente?

Já e foi uma queda muito feia. Eu tinha que fazer o tri-campeonato paulista e tinha que chegar na frente da Karina Bueno e não precisava fazer o melhor tempo, apenas tinha que chegar na frente dela. Era uma pedreira em Bragança Paulista e chegou a hora que falei pra mim mesma, não vou frear e soltei mesmo em uma pirambeira cheia de pedras e bem acidentada e daí onde não deu mais eu freie muito rápido e acabei decolando. Mais a frente tinham duas pedras e minha cabeça foi para no meio delas…putz, fiquei com a cabeça presa (risos). Foi loco. As pessoas tentaram puxar pelo capacete e não saia de jeito nenhum e meu nariz estava sangrando porque o próprio capacete acabou batendo nele. Meu, os caras tiveram que remover a terra debaixo das pedras para poder tirá-las e eu sair. Não tinha nem resgate, tive que descer na garupa de uma moto e chegando embaixo eu toda ensangüentada, meus pais vendo tudo aquilo sem nenhuma ambulância. Foi um susto muito grande que todos tiveram e felizmente nada demais aconteceu apenas um nariz quebrado.

Marcia Cury: Acidente

Marcia Cury: Acidente | Foto: Arquivo Márcia

Como fica o mountain bike para você no futuro? Vai continuar pedalando?

A bike já é uma extensão minha. Não tem mais jeito, eu não vivo sem. Atualmente estou praticando o cross country.

É isso ai, bike “Just For Fun”! Agora Márcia, qual a mensagem para o legado que você deixa para, que entendo que somos todos nós, praticantes do downhill, BMX e tal?

Vá para o esporte e se concentre nisso, pois é o que vai te trazer muitas coisas boas. A pessoa tem que estar muito consciente e para assumir os riscos e fazer ao máximo para chegar inteiro no final da pista.

Marcia Cury e Karina Bueno no Premier do New World Disorder 10

Marcia Cury e Karina Bueno no Premier do New World Disorder 10 | Foto: Bortoletto

XRides agradece imensamente esta oportunidade a piloto que contribuiu para a evolução do DH no Brasil.

Valeu Márcia!

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9 comentários para Entrevista Márcia Cury

  1. Adorei!! Bortoletto
    Espero ter colaborado com o nosso esporte nacional e espero que cada vez mais, os brasileiros se destaquem a nivel internacional.
    Boa sorte…
    GO FOR IT!
    Bjs

  2. Aeeee…Marcia todos nós te adoramos!! Noooosssaa, parece que tudo que é de épocas atrás parece que era mais do esporte de alma mesmo, entrega pra Deus, hehe. Bom mas a mulecada hje manda muito e os equipos tudo hightec.. viva o DH!

  3. Tom Bike disse em 10/06/2010

    Muito bem seu Bortola! Gostei muito de saber seu interesse pelo balé! kkk

    Agora sério, Márcia Cury é uma das pessoas que imprimiu um estilo mais agressivo no ride MTB XC Capim com Poeira. Tá na ativa e ainda pedala muito!

    No meu link, mais sobre a moça.

  4. É isso ai Márcia, sempre contribuindo. Grande abraço!

  5. Demais a entrevista…os anos passam, as bikes evoluem mas a vibe ainda é a mesma…desafio e pilotagem total..

  6. Mini disse em 11/06/2010

    show de la pelota…eu acompanhei o inicio da carreira de DH da Marcia e da karina…saudades da espoca…como a Marcia disse,nao tinha equipamento..era joelheira de sk8 e muita fe!doideira total….eh pra tirar o chapeu!!!
    Em pensar q tem “nego” pendurado nos freios com as bikes de hj em dia….Aquela epoca agente descia de coroa 48 catraca 11 e pedalando tudo!!!DH de 1990 era “sangue nos oio”!

  7. claudio disse em 07/12/2010

    Ola Marcia sou um novato mtb não que eu seja um atleta como vc rsrsrsrs. Bem quero comentar que tive o prazer de conhecela por um tem breve numa converssa e de fato onde vc esbanjou muita simpatia alem de blz e charme.Quero aqui retribuir te desejando sucesso e deixar um grande abraço.

  8. Marcia Cury,
    Que legal ver alguma noticia tua denovo, foi meio sem querer.
    Acompanhei tuas vitorias pela velha “BiciSport”. Fez bonito.
    Adorei o – “A bike já é uma extensão minha. Não tem mais jeito, eu não vivo sem”.
    Sinto o mesmo. Mesmo tendo abandonado a magrela por um tempo, voltei pra ela pra ficar.
    E vc continua uma gata, com esses belos olhos verdes..

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