Os sistemas de suspensão e seus efeitos

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Publicado dia às 13:48 no canal Artigos, Destaque, Informações gerais por Balog

Agora recuperado do maior susto da minha vida… volto a escrever e divido com vocês um pouco de conhecimento técnico.

Com o desenvolvimento do mountain bike e aparecimento de equipamentos específicos na década de 80, os praticantes passaram, naturalmente, a procurar trilhas e obstáculos cada vez mais difíceis de serem transpostos, o que levou ao desenvolvimento tecnológico do equipamento, um ciclo vicioso positivo que tem como único limitador a tecnologia de produção disponível.

Os atletas passaram a sentir a necessidade de maior controle em altas velocidades e sobre obstáculos, e grandes empresas passaram a desenvolver bicicletas que contavam com tecnologia e sistemas de suspensão, inicialmente apenas dianteira e, mais tarde, tendo como base as motocicletas, sistemas de suspensão traseira. Essas bicicletas com suspensão total são chamadas, em inglês, de full suspension.

O modelo Vipor (full suspension), 1993, da canadense Norco.

O modelo Vipor (full suspension), 1993, da canadense Norco.

Observando a invencibilidade das bicicletas full suspension em competições fora de estrada, principalmente na modalidade downhill, todas as empresas que visavam a ser competitivas no mercado de bicicletas de alto desempenho começaram a desenvolver modelos de quadros e novos sistemas de suspensão.

Os modelos atuais contam com diversas tecnologias de sistema de amortecimento traseiro, que podem ser divididas em quatro categorias básicas, mas antes de destrinchar os detalhes de cada uma delas, é preciso entender como funciona e para o que serve a suspensão.

A principal função de um sistema de suspensão é lidar com o terreno, as trepidações, os solavancos e os impactos que o mesmo impõe. Estes solavancos são, geralmente, mais do que apenas impactos verticais, uma vez que a bicicleta está, normalmente, em movimento para frente quando estes ocorrem.

Com a introdução da suspensão, foram percebidos alguns efeitos negativos, que são combatidos de diversas maneiras. Um exemplo seria o que chamamos de pedal-bobbing, que se resume à reação da suspensão à força imprimida nas pedaladas. Esta reação, além de causar desconforto, causa perda de parte da energia transmitida pela corrente até a roda traseira, dificultando a aceleração da bicicleta.

À esquerda, vê-se o posicionamento do câmbio traseiro com a suspensão traseira em posição estática; à direita, pode-se observar o estiramento do câmbio devido à compressão da suspensão.

À esquerda, vê-se o posicionamento do câmbio traseiro com a suspensão traseira em posição estática; à direita, pode-se observar o estiramento do câmbio devido à compressão da suspensão.

Existem também os efeitos causados pela reação da corrente sobre o sistema de suspensão e vice-versa. A maioria dos sistemas de suspensão, ao ser comprimida, causa o aumento da distância entre a coroa e o eixo traseiro. Ligando estes dois pontos, existe a corrente de transmissão, que sofre a incidência desta tração e tem, como única alternativa para minimizar sua influência sobre o funcionamento da suspensão, esticar o câmbio traseiro, a única parte flexível do sistema. Podemos citar, como principais influências, a dificultação (entende-se por enrijecimento) parcial do funcionamento da suspensão, ou a puxada do pedivela no sentido anti-horário (sentido contrário ao de impressão de força à roda) pela corrente. Além dos efeitos causados pela frenagem sobre o funcionamento da suspensão, abominados por alguns e mal percebidos por outros.

Os sistemas de suspensão

Para facilitar a compreensão da explicação sobre os diversos sistemas, pode-se observar, abaixo, uma figura contendo a nomenclatura das partes de um quadro de bicicleta e um pequeno glossário de termos técnicos. Muitos destes termos têm origem na língua inglesa e não costumam ser traduzidos.

Partes do quadro

Partes do quadro

Glossário:

  • Curso: refere-se à extensão do movimento que um mecanismo de suspensão permite. Define a extensão vertical que o eixo da roda se desloca.
  • Sag: a definição de sag, às vezes chamada de static sag, é a diferença entre a suspensão quando totalmente estendida e quando ligeiramente comprimida sob o peso da própria bicicleta somado ao peso do piloto.
  • Pré-carga: refere-se à carga aplicada à mola (seja helicoidal ou pneumática) antes de as cargas externas, assim como peso do piloto, serem aplicadas. Mais pré-carga faz com que a suspensão apresente menor sag.
  • Retorno: refere-se à velocidade com que os componentes da suspensão retornam à sua posição original.
  • Pedivela: conjunto de alavancas e engrenagens pivotadas ao movimento central, através do qual a força da pedalada é transmitida à corrente.
  • Triângulo dianteiro: refere-se ao triângulo formado pelo top-tube, down-tube e seat-tube. Em suas extremidades, encontram-se o tubo da direção e o movimento central.
  • Balança traseira: estrutura principal do sistema de suspensão traseira, normalmente formada pelo chain-stay.
  • Pivô: refere-se a um ponto articulado, ou de rotação, entre dois elementos do sistema.

Sistemas de suspensão:

Horst Link® Four Bar:

Conhecido por muitos como o verdadeiro Four Bar e chamado de Horst Link®, em homenagem a Horst Leiner, alemão que patenteou o sistema em 1985, e produziu a primeira bicicleta com o mesmo em 1990. A patente, desde maio de 1998, é propriedade da Specialized Bicycles, que dá o nome de FSR® ao sistema.

O design difere do sistema Rocker Link pelo posicionamento do pivô traseiro, localizado, neste caso, no chain-stay, à frente do eixo da roda. Desta forma, o eixo da roda não mais deverá seguir um arco restrito, tornando-se relativamente neutro em relação aos efeitos negativos da frenagem e tração da corrente. Ainda assim existe certo grau de estiramento da corrente, porém bastante próximo da neutralidade. Isso significa que o piloto não precisa sobrecarregar a pressão (entende-se por rigidez) do amortecedor traseiro a fim de evitar tal reação, possibilitando o funcionamento mais “livre” da suspensão.

Imagem demonstra variação mínima da distância entre o movimento central e o eixo traseiro no sistema Horst Link®.

Imagem demonstra variação mínima da distância entre o movimento central e o eixo traseiro no sistema Horst Link®.

Rocker Link:

Também chamado de Four Bar ou Walking Beam, este sistema consiste em uma balança traseira (chain-stay) pivotada em um ponto próximo ao movimento central, uma barra de ligação (seat-stay) pivotada acima do eixo da roda traseira e um par de links fixados à parte superior do seat-stay, ao triângulo dianteiro, e que comprimem o amortecedor. É chamado de Four Bar por ser formado por quatro componentes não flexíveis ou compressíveis com trajetórias distintas entre si. A diferença entre este sistema e o, já citado, Horst Link®, é o posicionamento do pivô traseiro, neste caso posicionado acima do eixo traseiro, no seat-stay.

Pode não parecer, mas esta diferença tem um efeito dramático sobre a trajetória descrita pela roda traseira durante o seu funcionamento. Neste sistema, o eixo traseiro descreve um arco perfeito, tendo como ponto de rotação o pivô principal, próximo ao movimento central.

Por descrever um arco perfeito em sua trajetória, este sistema tem algumas semelhanças com o sistema Single Pivot, como a tendência a sofrer com o pedal-bobbing sob pedaladas mais fortes e reações causadas pela frenagem. Contudo, este permite uma enorme variedade de posições para o amortecedor traseiro, o que dá ao designer maior liberdade e possibilita que o mesmo determine se a suspensão terá uma taxa de enrijecimento progressiva, linear ou até regressiva.

Quadro Scream V2, da Banshee Bikes, utiliza o sistema Rocker Link, 2006. Em vermelho a trajetória descrita pelo eixo traseiro.

Quadro Scream V2, da Banshee Bikes, utiliza o sistema Rocker Link, 2006. Em vermelho a trajetória descrita pelo eixo traseiro.

Floating Pivot Point

Esta categoria deve ser entendida por um grupo de diferentes sistemas com o mesmo princípio, como o Virtual Pivot Point (VPP®), patenteado pela Outland e comprado pelas norte-americanas Santa Cruz Bicycles e Intense Cycles; o VF4B®, desenvolvido pelo designer e engenheiro escocês Keith Scott e utilizado na linha de bicicletas da canadense Banshee Bikes; Maestro®, patenteado e utilizado exclusivamente pela Giant Bicycles; e o DW Link®, desenvolvido e patenteado pelo engenheiro norte-americano Dave Weagle, e licenciado para grandes marcas originárias dos EUA, como Ibis Cycles, Iron Horse Bikes e Turner Bikes.

A expressão Floating Pivot Point é utilizada para descrever a forma pela qual o triângulo traseiro “flutua” ao redor de uma área de pivô, diferentemente de outros sistemas, todos solidamente ancorados em um único ponto.

Os links permitem que o triângulo traseiro descreva uma trajetória ditada pelos dois arcos distintos que cada um descreve. No caso do VPP®, isso resulta em uma trajetória em curva parecida com um “S”. Quando o piloto sobe na bicicleta e a suspensão comprime o amortecedor ao ponto do sag, a roda traseira move-se ligeiramente para frente, sendo que o ponto ideal de sag ocorre quando a roda está no ponto máximo de sua trajetória para frente. A partir deste ponto a trajetória passa a ser ligeiramente para trás, nos três quartos restantes do seu curso.

Protótipo do modelo Legend, para downhill, da Banshee Bikes, utiliza o sistema VF4B®, 2008. Em vermelho, a trajetória descrita pelo eixo traseiro.

Protótipo do modelo Legend, para downhill, da Banshee Bikes, utiliza o sistema VF4B®, 2008. Em vermelho, a trajetória descrita pelo eixo traseiro.

A tensão da corrente tem grande influência neste sistema. No ponto de sag, a força da pedalada mantém a suspensão praticamente neutra em relação ao pedal-bobbing. Porém, seria incorreto afirmar que este sistema é totalmente neutro às reações negativas da corrente. Apesar de oferecer ótima aceleração, o sistema exerce enorme tensão sobre a corrente e, sob pedaladas mais fortes, é possível sentir o pedivela sendo puxado no sentido contrário.

Neste sistema, é necessária uma regulagem específica do amortecedor traseiro para o funcionamento correto. Menos ou mais sag do que o recomendado pelo fabricante faz com que o funcionamento do sistema seja totalmente alterado.

Outra vantagem deste sistema é a enorme rigidez lateral, possibilitada pelos links curtos e pela balança traseira com design sólido.

Single Pivot:

Este é o sistema mais simples disponível no mercado. Um triângulo traseiro é pivoteado em algum ponto próximo ao movimento central, fazendo com que o eixo traseiro descreva uma trajetória determinada pelo raio entre o pivô e o próprio eixo. Um amortecedor é comprimido pela terceira ponta do triângulo, normalmente contra um suporte fixo ao down-tube ou no top-tube.

Bicicletas com sistema Single Pivot, pela baixa complexidade e robustez de suas partes, são maravilhosamente simples, dificilmente apresentam problemas e são extremamente duráveis.

Os problemas com a reação da corrente sobre a suspensão, e vice-versa, podem ser minimizados pelo correto posicionamento do pivô. Porém, o sistema é o mais suscetível aos efeitos negativos causados pela frenagem.

Quadro Gruitr, da Sinister Bikes, utiliza o sistema Single Pivot, 2008. Em vermelho, a trajetória descrita pelo eixo traseiro.

Quadro Gruitr, da Sinister Bikes, utiliza o sistema Single Pivot, 2008. Em vermelho, a trajetória descrita pelo eixo traseiro.

Modelos com este sistema mais simples ainda são utilizados por grandes pilotos e equipes, inclusive na conquista de grandes títulos internacionais, o que pode ser visto como uma prova de suas qualidades. Como exemplo, podemos citar as marcas Orange Bikes, Morewood Bicycles, Gary Fisher Bikes, Cannondale, Santa Cruz e Mountain Cycles. Estas empresas, há anos, desenvolvem modelos baseados em tecnologia de suspensão com pivô único, preocupando-se com o principal desafio de um quadro desse tipo, o posicionamento do pivô, capaz de mudar a sensibilidade da suspensão em terreno acidentado e a influência do pedal-bobbing.

Finalizando

O mercado mundial está rechado de marcas e modelos, apresentando novas tecnologias e surpreendendo a cada ano, o que cria novos desejos e sonhos de consumo.

Antes de pensarmos em definir qual a melhor bike do mundo, ou o melhor sistema de suspensão do mercado, vale pensar nas necessidades de cada piloto, de cada estilo de pilotagem, de cada pista ou até mesmo no serviço pós-venda que cada marca oferece, garantia etc…

Sonhar faz bem e se imaginar no pódium de uma copa do mundo não é pecado, mas devemos ser realistas e analizar cada detalhe de um quadro, o principal componente da bike, no momento da compra.

Esta foi apenas uma introdução para auxiliar nossas escolhas, há muito mais para estudar.

Boas compras e muita bike para todos nós!

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4 comentários para Os sistemas de suspensão e seus efeitos

  1. Bom retorno Balog! muito boa matéria parabéns!

  2. show a materia….belo retorno….abraco

  3. matéria show balog!!!

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