Montanhas Race Enduro 2017, #1 – Dia 2

texto: ANDRE BORTOLETTO ⋅ fotografia: ADILSON MARTINS

Sábado, 15 de Abril, segundo dia do Montanhas Race na versão inédita trans enduro. Com o amanhecer, a realidade voltava à medida que a neblina do vale se dissipava. A noite foi uma mistura de incertezas e perspectivas apimentadas por flashbacks do primeiro dia em Morungaba (SP). Na verdade, essa sensação cresceu durante o traslado para a cidade de Monte Alegre do Sul (SP), o percurso não era fácil mesmo com auxílio do GPS. Acidentalmente os atletas se encontravam ao longo deste trajeto enquanto compravam mantimentos – na verdade, cerveja. As montanhas estavam ali presentes, porém ocultas pela escuridão da noite.

A base para o início da empreitada do segundo dia foi estabelecida na Pousada Salmo 23, uma antiga fazenda que guarda inúmeras histórias dos tempos gloriosos da produção de café. Um lugar muito interessante que mantém um museu familiar em homenagem ao falecido artista plástico Edson Peres (pai da família que hoje mantém a fazenda), com uma exposição permanente de suas esculturas em madeira.

Hospedados nas diversas casas que eram usadas pelos colonos antigamente, os atletas aos poucos se arriscaram a cruzar as pastagens para confraternizar com outros pilotos e com o staff da organização durante a noite na fazenda. Não havia sinal de celular e muito menos internet. Ótimo.

Sete horas da manhã, café servido na mesa da sede da fazenda. O clima estava sereno e as montanhas já se revelavam. O deslocamento, diferentemente do primeiro dia, foi em grupo, porém logo se espalhou devido à forte inclinação do terreno. Um campo aberto com um visual amplo proporcionava acompanhar todos os pilotos durante a subida dando exatidão na grandiosidade do lugar. Era uma área exposta e eventualmente se via a boiada curiosa correndo de um lado para o outro.

O regulamento da prova permitiu o reconhecimento da trilha da Especial 5 (E5). Nomeada de “Zig-zag”, ela basicamente é composta de curvas e mais curvas que causou enjoo em alguns atletas. Apesar da pouca inclinação, era possível sustentar uma boa velocidade com tempo médio de 3 min. Sem dúvida foi o aquecimento perfeito para o dia mais difícil de toda a prova.

Na categoria Pro, a invencibilidade de Leonardo Mattioli foi quebrada por Julio Giani, por 1 segundo, que fechou o tempo de 2 min 36 s. Na Master 1, Fernando Simioni fez valer todo o empenho de ter retornado para São Paulo com o objetivo de arrumar sua bike e cravou o melhor tempo da categoria. Na Master 2, Juliano Jeremias bateu o tempo do mineiro Gustavo Amorim com a marca de 2 min 39 s. Caio Salerno se manteve na liderança da Master 3, e Luciano KDra dispara na frente na Sênior. Na categoria feminina Anne-Kathrin Gutwein seguiu firme na empreitada de proporções épicas e fez um bom tempo.

Algumas quedas e novamente posições alternadas pincelaram o clima de competição rumo à próxima especial. A E6 apesar com menos curvas era muito mais técnica que o trecho cronometrado anteriormente. Em meio aos eucaliptos, a trilha era veloz e muito escorregadia devido às sessões em off camber. Logo no final, um trecho em particular demandou muita técnica. Neste trecho, percorrer sem queda significava diminuir o tempo em cerca de 5 segundos. Realizado o reconhecimento, foi hora de acelerar.

Surpresa na Pro com o representante de Monte Verde, Guto Affonso, que colocou 3 segundos sobre o tempo de Julio Giani, de Bragança Paulista (SP). Mattioli mais uma vez não conseguiu imprimir o mesmo ritmo do dia anterior, e Diego Knob ainda não se ajustava competitivamente como normalmente o faz. Fernando Simioni largou e cravou mais uma vez o melhor tempo like a boss na Master 1. Na categoria Master 2, Gustavo Amorim reage assim como Luis Altenfelder e fazem os melhores tempos. Caio Salerno se mantém na frente na Master 3, e Juliano Florence finalmente conquista a segunda posição na categoria.

Na opinião de alguns, foi exatamente no deslocamento para E7 que as exigências físicas demandadas por uma competição trans enduro sucumbiu os competidores. Alimentos e água passaram a se esgotar com rapidez, muitos já compartilhavam com os companheiros o pouco que sobrava, mesmo entre rivais. Cerca de 30% dos competidores optaram por não fazer o reconhecimento da Especial 7 afim de preservar energia para o restante do dia, arriscando uma tomada de tempo no estilo blind (sem reconhecimento). O restante do dia ainda incluía uma interminável subida – a subida ao céu -,  famosa na região.

Chegando à cabeceira da E7, Juliano Florence da Master 3 foi o primeiro desmoronar e passa mal, mas, determinado, segue em frente em um disputa que ainda lhe cobraria mais caro. Com trechos iniciais semelhantes à E6, a velocidade era a característica principal em meio a eucaliptos que seguia por uma reta cheia de bumps, que lembravam um pump track. A parte final, mais técnica e com trechos de alta velocidade por meio de canaletas, transpassava um córrego que exigia atenção para que não se enroscasse em uma curta retomada logo em seguida. Houve um certo congestionamento entre os que se atrapalharam ali.

Ainda nesta especial, uma das fitas de sinalização do percurso foi quebrada durante a cronometragem da categoria Master 2, consequentemente alguns atletas se perderam durante a descida. Thiago Velardi – organizador do campeonato – resolve o impasse que aborreceu alguns competidores cancelando os tempos da Master 2, e das categorias que largaram em sequência (Master 1 e Pro). Ao fim, a água já tinha se tornado ouro entre os atletas, alguns já recorriam a uma pequena caída d’água à beira da estrada, atitude mais sensata frente ao início do deslocamento mais exigente sob o forte sol da tarde.

Até o momento, com o cancelamento da E7 para algumas categorias, a briga pelo melhor tempo se concentrou na Master 3 onde apenas três segundos diferenciava os três primeiros colocados. Caio Salerno ainda mantinha força na liderança. A ideia comum era: finalizar mais uma especial para chegar à base da Fazenda Salmo 23, tomar uma cerveja gelada e almoçar tudo o que conseguir. Ao final desse último deslocamento, a união entre competidores era total.

A última especial do dia foi realizada em estilo blind. O capim alto se tornou mais uma variável a se levar em conta para uma leitura precisa do terreno e desenvolver mais velocidade. Mesmo assim a trilha era exigente com suas curvas e off cambers, além de um belo sprint final no meio do vale, o qual, pela manhã daquele dia, estava tomado pela neblina.

Finalmente Mattioli conseguiu fazer o melhor. Na Master 1, Simioni não se rendeu e foi imbatível mesmo sabendo que não teria chances de subir no pódio por faltar em uma especial em Morungaba. Juliano Jeremias (Master 2) vence a sua segunda especial do dia (E5 e E8). André Bortoletto quebra a invencibilidade de Caio Salerno na Master 3. Luciano KDra já poderia ser considerado campeão na categoria Sênior e a atleta Anne-Kathrin confirmou sua matemática demonstrando um sentimento confuso entre cansaço e felicidade simultaneamente.

Na Pro, Julio Giani dá inicio a uma disputa pesada por 41 segundos frente a Leonardo Mattioli. Na Master 1, Lucas Henrique Vieira segue com folga na primeira colocação uma vez que Simioni poderia apenas continuar superar a si mesmo. Na Master 2, Jeremias teria que tirar 47 segundos sobre o tempo de Amorim, e na Master 3, Juliano Florence também buscava a redução, coincidentemente,  de iguais 47 segundos. André Bortoletto, da categoria Master 3, precisava de 50 segundos para bater o tempo de Caio Salerno. Sem dúvida, categorias bem disputadas.

O final de tarde aliviou com clima bom e temperatura agradável. A cidade de Monte Alegre do Sul presenteou o circuito Montanhas Race Enduro com quatro especiais inéditas, sendo uma em estilo blind, totalizando mais de 1.300 metros de altimetria acumulada. Os pilotos e organização retomam o itinerário seguindo para o último dia de competição na cidade de Bragança Paulista. Lá, novas pistas foram preparadas durante toda a semana para fechar com chave de ouro o primeiro trans enduro do Brasil.

Acompanhe o XRides e confira em breve a última matéria com os detalhes do terceiro dia do circuito Montanhas Race Enduro 2017 #1. Uma competição que ocorreu às margens da represa do Jaguari, em Bragança Paulista, com uma estrutura de dar inveja à muitas competições e com um público muito alto astral.

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