Dimensão Monte Verde

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texto & fotografia: ADILSON MARTINS

Depois de ultrapassar as últimas lombadas da estrada que parte da cidade de Camanducaia (MG) para Monte Verde (MG), pelo para-brisa do carro vejo uma noite de lua brilhante, percorrida por uma massa de nuvens pesadas e relampejantes que provoca a sensação de que o final de semana promete trilhas úmidas e escorregadias. Estar em direção ao destino certo, do desconhecido a ser explorado, é o sentimento que a pequena cidade de Monte Verde condensa em sua rede de trilhas. Este foi um final de semana, planejado há meses com os amigos Bruno Gayer, Guto Affonso, Caio Rufino e Rafael Marquez, que finalmente começava.

Sou recebido por Guto no centro de Monte Verde naquela fria noite na montanha. Partimos em direção ao Hotel Meissner-Hof, que oferece tudo que um mountain biker precisa antes e depois de trilhar quilômetros com sua bike: acomodações aconchegantes, café da manhã farto e, para finalizar, uma piscina aquecida para relaxar os músculos. Não bastassem essas regalias, somos recepcionados, com um bom vinho, pela Mariana, gerente do espaço. Em nosso bate-papo, descubro que o Meissner-Hof possui uma postura bike friendly, ou seja, ali, hóspedes ciclistas são incentivados a levar suas bicicletas, enquanto a maioria dos hotéis e pousadas possuem em geral uma política contrária à permanência de bicicletas (e outros artigos esportivos).

O Guto, que é um dos fundadores da MTB Monte Verde e também um dos guias da empresa, afirma e garante que, em Monte Verde, há trilhas para todas as idades e habilidades, todas elas ostentando belos cenários e paisagens. Apesar de a política de cidades-destino de inverno como Monte Verde tipicamente focar no turista “acorda-come-compra-dorme”, a MTB Monte Verde vem, por mais de três anos, desenvolvendo a infraestrutura de trilhas na região e, agora, junto com o Hotel Meissner-Hof, assume a frente na preparação da cidade para receber o turismo esportivo e de aventura em Monte Verde, que é naturalmente um grande centro a ser explorado.

A equipe da MTB Monte Verde é formada por Guto Affonso, Marius Alves, Rafael Cruz “Parrera” e Rafael Marquez, todos eles bikers residentes de longa data em Monte Verde, conhecedores de cada linha de suas montanhas, condição básica para que o passeio ou treino de qualquer pessoa pela região não se transforme numa presepada. Com muita responsabilidade e bom humor, são capazes de te guiar desde um simples passeio aos pontos turísticos da cidade até as trilhas mais secretas da região.

Mais tarde naquela mesma noite, o atleta de Bragança Paulista (SP), Bruno Gayer, também conhecido simplesmente como “Chupim”, se uniu ao grupo. Bruno já tem sua carreira consolidada no mountain biking brasileiro. Há 12 anos competindo na categoria elite do downhill, agora começa sua migração para categoria máster e também para a modalidade enduro. Além disso, possui grandes planos para os bastidores do esporte: ministrar palestras e fundar uma instituição que atue como centro de treinamento que, além da atuação física, prepare os atletas com informações úteis sobre seus direitos, questões de infraestrutura e desenvolvimento técnico de trilhas e, principalmente, sobre organização de eventos-treino para as competições internacionais.

O roteiro traçado por este grupo de amigos para os nossos próximos dois dias de pedal foi, é claro, planejado para percorrer os caminhos mais extremos. Apesar dos rumores de chuva na noite de sexta-feira anterior, o tempo permaneceu estável. Monte Verde possui um microclima próprio e, portanto, é impossível fazer qualquer tipo de previsão climática nessa região. A nuvem negra daquela noite, cheia de flashes, apenas passou pela cidade durante a madrugada, liberando o sol para um dia de temperatura amena no sábado.

Decidimos partir por um caminho mais leve, a fim de irmos nos acostumando ao estilo das trilhas. Logo no começo daquela manhã de sábado, pedalamos pelos trechos mais baixos da cidade, primeiro na Trilha do Sirigrilo, que fica em uma área de campos e bosques de araucárias conhecida como Fazenda Bela Vista ou Batatal, próxima a um bairro residencial. No alto do morro que abriga as trilhas da Fazenda, existe uma pista de motocross que não estava “pedalável” em toda sua extensão – chovera durante toda a semana, e um lago havia se formado em uma das curvas, enquanto uma lama espessa e profunda impedia o caminho em outros pontos. Bastou-nos, porém, um declive com uma grande mesa construída no terço final para que algumas boas dezenas de minutos de ação aérea redesse momentos de forte adrenalina. Bruno montava uma bike específica de DH, e o Guto pedalava uma mountain bike para enduro. Enquanto o primeiro se esforçava em colocar toda aquela massa metálica em movimento no lugar certo, o segundo precisou de bem mais sensibilidade para não partir ao meio aquela bike aparentemente frágil, mas que acabou aguentando bem os trancos dos grandes saltos.

O pedal pelas trilhas da Fazenda Bela Vista continuou até bem depois da uma hora da tarde, quando nossa água já havia acabado e o clima maluco das montanhas trazia, mais uma vez, novo grupo de nuvens escuras que fechavam o céu. Com a fome apertando, partimos para o almoço rumo a uma churrascaria que fica na rua principal do centro da cidadezinha. Guarde seu nome: Rancho da Picanha. Picanha. É preciso dizer mais? Lá nos encontramos com a esposa do Rafael Marquez, que nos acompanhou em três generosas porções de picanha suculenta, duas ao ponto e uma bem passada, fora as guarnições. Quando a mesa foi posta pelos simpáticos garçons, ficou estampado, no olhar de cada um sentado à mesa, um implícito “pedimos demais” – mas não chegou a sobrar um filé sequer.

Conversa jogada fora e um café expresso para tirar a sonolência pós-banquete, partimos para as belas paisagens de uma das trilhas secretas. O caminho não é muito exigente fisicamente, mas trata-se uma subida constante pelas estradas que se ramificam pela montanha. Ao fim de uma pequena “escala-bike-minhada”, tivemos acesso ao visual de todo o vale no qual se encrusta a pequena cidade, o mar de morros mais além percorrendo todo o horizonte. Foi o timing perfeito para colocar em ação uma breve sessão de freeride numa encosta rochosa que erguia-se contra um pôr de sol privilegiado. Anoitecendo, resgatados pela equipe MTB Monte Verde, partimos de volta ao hotel, onde tomamos um banho quente e reaquecemos o corpo.

Nesta mesma noite de sábado, o atleta Caio Rufino, também de Bragança Paulista, se uniu ao grupo e, curiosamente, ninguém se atrasou para o happy hour oferecido no bar do Meissner-Hof: tábua de frios e drinks pelo balcão, em um ambiente tranquilo para se deixar relaxar. Neste momento, Caio pôde apenas escutar as histórias que Guto, Rafael e Chupim, na companhia da extrovertida Mariana, inspirados pelos drinks, fizeram questão de lhe contar, sobre as experiências únicas vividas nas trilhas do dia. Os olhos de Caio brilhavam, mas sabíamos que o dia seguinte também seria o momento de ele viver suas próprias histórias.

No domingo de manhã, ainda sob efeito colateral dos drinks (virados?) da noite anterior, optamos em começar pegando leve, e perto. Fomos logo botar em prática a promessa bike friendly do hotel, dando início a uma sessão de downhill urbano em suas dependências externas. Obstáculos não faltaram. Aliás, não tardará muito, o hotel ainda há de oferecer, além de apenas aconchego, um campeonato de downhill urbano por essas mesmas calçadas.

Depois fomos para a Trilha do Platô, provavelmente a mais famosa de Monte Verde e, por isso mesmo, aquela que exige maior atenção e, sobretudo, calma do ciclista mais afoito, uma vez que existe um pequeno tráfego de pessoas caminhando por ali. Em seguida, fomos em direção ao topo da serra da Mantiqueira, por trilhas ainda mais embrenhadas na Mata Atlântica. Esses caminhos, combinados, são o suprassumo daquilo que entendo por mountain biking. Terreno íngreme, sessões de pedras com um toque sutil de limo, pequenos drops, piso escorregadio, tração para alta velocidade, penhascos, barro, riachos, cascalho, raízes, muitas raízes úmidas. Sem mais. Esses são termos suficientes para que qualquer mountain biker acostumado a inspirar o ar das altas montanhas saiba sobre o que estamos falando aqui.

As trilhas são altamente divertidas, com a proporção certa entre agressividade e segurança, [equilibradas] pela velocidade em que você anda.
– Caio Rufino.

A última trilha do roteiro é fruto de um projeto idealizado e executado pelo Guto Affonso. Batizada de New Zealand Connection, ela possui as características únicas às quais o próprio nome remete. Transpõe terras, permeando pelas entranhas de uma requintada vegetação tropical densa e úmida, composta por samambaias enormes, orquídeas, bromélias, liquens, musgos, arbustos e árvores raras, enfim, toda uma variedade única de espécies que só podem ser observadas nestas partes altas dos maciços da Mantiqueira. É um singletrack que desenha um ziguezague pela montanha, reservando o ápice de ação para os metros finais, quando o Rio do Cadete serpenteia por debaixo das bicicletas. Neste momento, o ciclista deve pedalar por estruturas conhecidas como shore – pequenas pontes estreitíssimas, com cerca de 20 centímetros de largura, verdadeira coisa de circo –, que colocam os nervos à prova. É um trecho que exige muito autocontrole, didático em diversos sentidos.

O desafio começa com um pequeno shore de cerca de 2 metros de extensão. Em seguida, vem outra pontezinha um pouco mais longa e mais alta, capaz de fazer a adrenalina bater ainda mais forte. A última é de nível expert. Nela não há argumentos para negociação – ou você vai até o fim, ou você vai até o fim. São mais de 20 metros a serem percorridos sem qualquer possibilidade de parada. Chupim foi o primeiro a tentar passar por ela, sem sucesso. Com um ritmo lento, acabou se desiquilibrando e despencou de uma altura de mais de 2 metros e meio direto nas águas rasas do rio. Não se machucou, felizmente, mas adicionou algumas dores àquelas que já latejavam em razão a um acidente sofrido durante a corrida da Descida das Escadas de Santos, ocorrida no final de semana anterior. Guto, o guia da aventura, encarou a ponte e saiu focado pedalando, fazendo o que devia ser feito. Ainda finalizou com um manual nos metros finais da travessia.

O desafio seguinte foi o de fazer um adequado pedido de almoço no Restaurante Paulo das Trutas, entre as tantas e variadas opções que lá são oferecidas: truta com amêndoas na grelha, ao molho madeira e mais uma infinidade de modalidades do pescado. Não há localização melhor para um restaurante que se dedica a servir pratos deliciosos para ciclistas famintos após uma longa jornada: no fim da trilha, literalmente. A escolha unânime foi pela especialidade da casa, Truta no Papelote: truta assada em forno lento, com azeitonas fatiadas, champignons, alcaparras, tomates, pimentões e manteiga.

Já era hora de cada um voltar para casa, pois o final de semana havia acabado. A cada dia do roteiro planejado, percorremos cerca de 25 km de trilhas e acumulamos aproximadamente 1.900 m de elevação.

A infraestrutura, as propriedades e características naturais da cidade de Monte Verde definem a cidade como uma espécie de elo perdido, no que se refere ao estilo de trilhas e cenário para se praticar o melhor do ciclismo de montanha no Brasil, seja na forma de um simples passeio, um hobby ou mesmo para competição. Não é à toa que algumas dessas trilhas, e outras que não conseguimos colocar no roteiro, foram palco de um dos estágios mais difíceis e temidos de uma etapa do Montanhas Race Enduro em 2016.

A seguir seguem, alguns dos serviços que recomendamos e que podem te ajudar a poupar trabalho no planejamento de sua próxima viagem. Ou de seu próximo desafio.

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5 Comments
  1. Nossa que vontade de pegar a Bike e ir rumo a Monte Verde, sem duvida alguma vai ser um dos melhores destinos pra MTB do Brasil estero que vcs tenham apoio do comercio local e prefeitura para assim se firmar como a capital do All Mountain!!!!!

  2. Ótima matéria!

    Muito gostoso de ler e as fotos ficaram sensacionais, bela apresentação da cidade para o público da bike, todos vão querer conhecer.

    Parabéns!!!

  3. Parabéns! Faz tempo que não leio algo tão bem escrito sobre nosso esporte… Falta isso. Falta saber que, quando quer algo bem feito, bonito, tem planejamento e envolvimento antecipados. Tem infraestrutura e gente do bem… Planejo uma visita em breve à Monte Verde. esta publicação, com certeza será uma ótima referência!

  4. Chique demais !!! Monte verde é sensacional lugar paradisíacos e comida de primeira , só não entendi estes caras pedindo Picanha e tirando a gordura kkkk pede logo a TRUTA !!!! Parabéns pela matéria

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