XTerra Tour 2017 – Etapa de Paraty (RJ)

XTerra Brazil 2017 - MTB Enduro - Paraty (RJ). Adilson Martins, 2017.

A temporada de enduro mountain biking de 2017 terminou em grande estilo na última etapa do XTerra Brazil Tour 2017 na cidade de Paraty (RJ) nos dias 2 e 3 de dezembro. Foram três etapas realizadas ao longo do ano – nas cidades de Ilhabela (SP), Tiradentes (MG) e Paraty (RJ) -, todas elas com coordenação técnica de Thiago Velardi que desenvolveu o melhor do enduro em pistas nacionais. Pode-se afirmar que em todas as edições do XTerra 2017, as competições do MTB Enduro foram duras, muito duras.

Além do viés técnico, a infraestrutura e organização do evento atingiram níveis de excelência cujo resultado foi a participação recorde de pilotos nesta última etapa. Cerca de 100 atletas competiram por dois dias e encararam cinco descidas insanas no litoral carioca, sendo que a última com mais de 10 minutos para ser finalizada.

Está bem forte o nível. Agora o enduro não é mais aquele negócio lá só de duas, três [meninas competindo], não. Agora já tem um monte de mulherada nova, mulherada com um preparo físico bom, com boa técnica. Então, não pode vacilar.
– Patrícia Loureiro, atleta.

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Patricia Loureiro em entrevista com Bortoletto – Parte 2

Adaptações ao clima e planejamento

A atenção da maioria dos pilotos se voltava para as condições meteorológicas. Uma frente fria avançava pelo litoral e a previsão era de chuva. Viria água, muita água. Todos os pilotos iriam experimentar, pela primeira vez no campeonato, as dificuldades de pilotar na lama depois de um longo período de estiagem, com exceção daqueles que correram a segunda etapa em Tiradentes.

Durante a viagem em direção à cidade histórica, foi possível ter noção de como estaria o terreno. Poças d’água ao longo do acostamento da BR-101 indicavam que já na quinta-feira havia chovido. A previsão do tempo indicava aumento da pressão atmosférica no fim do sábado, porém no domingo iria diminuir indicando mal tempo. Foi uma investigação determinar quais as condições o terreno iria apresentar e qual o melhor tipo de pneu para ser utilizado. A escolha do pneu mais adequado é crucial para maximizar a pilotagem sem comprometer a eficiência da pedalada. Cerca de metade dos pilotos optaram pelos pneus específicos de lama, enquanto que a outra metade optou por pneus all conditions que podem deixar a desejar em situações mais críticas, porém suficientes para algum terreno molhado.

Nada disso pareceu funcionar pois a situação ficou preta.

A prova

Poderia chover a qualquer momento com o tempo instável. A largada para o início do deslocamento foi às 9h na sede do Paraty Bike Park. Segundos depois, uma forte chuva caiu, mostrando bem como iria ser as próximas sete horas de prova neste dia.

Quatro das cinco especiais programadas foram realizadas no primeiro dia da competição. Relativamente curtas, as pistas exigiram qualidade técnica dos atletas. Raízes, curvas e muitos off cambers eram características constantes nelas.

O acesso para o começo da Especial 1 (E1) era pela própria pista. Estava liso, muito liso! O clima era de tensão e pouca conversa podia ser escutada ao longo do terreno escuro, inclinado e lamacento. Alcançado o topo da montanha, a chuva deu uma trégua. Se a preocupação estava presente até mesmo no rosto dos mais experientes, imagine para aqueles que estavam estreando na modalidade.

A atleta Thais Porto – de Taubaté (SP) – foi uma das estreantes e nos relatou o que viu da E1 ao fazer o deslocamento:

Tem umas raízes escorregadias. Para mim, que estou estreando nisso, […] vai ser bem divertido. Dá para descer, com muita cautela […]. Minha melhor estratégia é chegar na hora e ver onde dá para passar.
– Thais Porto, atleta.

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Thais Alves Porto em entrevista com Bortoletto

As mulheres seriam as últimas a largar o que significaria enfrentar uma pista onde quase uma centena de bikes teriam passado e destruído qualquer possibilidade de um caminho “menos ruim”.

Cris, piloto de Monte Verde (MG), também nos contou sua opinião sobre o deslocamento e sua estratégia para a primeira especial:

Eu achei o flat um bom warm up e o uphill sensacional […]. Se conseguir fazer zerado sem cair é isso aí […]. Diversão é o primeiro de tudo. Eu quero terminar. Amanhã tem mais e tem o dia inteiro hoje. Não dá para parar na primeira e perder o final de semana.
– Cris, atleta.

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Cristian em entrevista com Bortoletto

O Cris é um piloto que chamamos de contender, ele sabe bem como funciona a estratégia do enduro. Realmente não dá para arriscar a competição no “tudo ou nada”, como nas provas de downhill. Talvez seja por isso que o número de adeptos vem crescendo a cada ano na modalidade. O atleta sempre tem várias chances de recuperar os erros.

A categoria Profissional foi a primeira a largar. Leonardo Mattioli tinha o desafio de defender sua posição frente a adversários duríssimos como o carioca Diego Knob e paulista Julio Giani.

Em meio a um clima de velório antes da largada, Knob passou uma impressão positiva sobre pilotar em condições adversas. Apesar do tempo ruim, e condições lastimáveis do solo, ele reforça a diversão e a reunião dos pilotos. Sempre uma atitude positiva no início de qualquer corrida.

Acho que a chuva vai dar uma apimentada maior. Ainda mais que esta primeira vai ser blind e com um formato diferente da elite largar primeiro […]. Acho que vai ser interessante ver a galera andar com a pista de uma forma diferente, chuva […]. E tentar se divertir ao máximo […].
– Diego Knob, atleta.

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Diego Neuman Knob em entrevista com Bortoletto

A estratégia parecia ser a mesma para todos os atletas. Alguns assumiam táticas de recuperação porque sabiam que iriam cair logo no início. A paulista Lucy Onodera já tinha em seu cardápio de manobras a estratégia perfeita para não perder preciosos segundos consumidos em uma possível queda. Sob a chuva que começava a cair ela contou:

Vai ser punk. Vai ser uma descida muito escorregadia, ainda mais que a gente vai descer no final […]. Se eu cair tem que levantar rápido, levantar o mais rápido que eu puder.
– Lucy Onodera, atleta.

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Lucy Onodera em entrevista com Bortoletto

O topo da montanha foi ficando cada vez mais vazio à medida que os pilotos largavam. O começo passava uma impressão mais tranquila. Tinha uma curva em “S” onde os freios e o grip dos pneus eram testados. Tudo parecia tranquilo até que uma curva para a esquerda revelava o pior. Uma descida muito íngreme e escorregadia seguida de curvas e mais curvas repletas de raízes e valetas. Depois de um tempo, ficar por dentro das valetas parecia ser a melhor opção para permanecer estável em cima da bike.

A mineira Bárbara Jechow fez parte das últimas atletas que desceram esta especial e relata o que enfrentou na primeira das quatro especiais do primeiro dia em Paraty:

Liso! Consigo contar nos dedos quantas vezes [consegui ficar] com os dois pés em cima da bike […]. A Especial 1 foi surpresinha, porque […] a gente viu ela de um jeito, e quando a gente chegou lá em cima da largada choveu muito, e passou muita bike antes da gente […].
– Bárbara Jechow, atleta.

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Barbara Jechow em entrevista com Bortoletto

Voltando para o Paraty Bike Park onde seriam realizadas as três especiais restantes, o cenário só enlameou mais ainda. A chuva continuou caindo. O tempo de deslocamento era apertado e a subida era muito, mas muito escorregadia em meio a mata. A trilha com trechos recém-abertos revelava o que estava por vir. Lama e muito off camber nas curvas. A conversa era pouca, os competidores já não se deslocavam em grupo. Alguns já estavam com atraso e outros cogitavam a desistência. Enduro é duro.

Se a primeira especial, que era uma trilha antiga, estava escorregadia, imagina o que estava por vir em trechos sob mata recém-abertos. Foi uma mistura de show de horror com desafio. Ao invés de vozes, o ambiente foi tomado por uma mistura de sons de pneus sendo esvaziados com ruídos de bikes descendo os primeiros metros sobre a lama. Estava frio e molhado e o desafio era se manter aquecido.

A parte final da Especial 2 foi em campo aberto, porém muitos tiveram problemas pelo acumulo de barro que travavam as rodas. Os mais experientes tentavam manter a rotação certa nas rodas para promover o desprendimento do barro. O público em campo aberto pôde assistir uma infinidade de tombos. Era uma condição quase que inédita depois de tanto tempo de estiagem.

Durante o deslocamento para E3, os atletas puderam exercitar o desapego com a bike. A decisão de mergulhar a bike inteira em um rio foi tomada sem muita dificuldade tamanho o problema que a lama causou. O objetivo se tornou um só, não dar bobeira e estar pronto para largar a terceira especial.

As especiais 2, 3 e 4 compartilhavam o mesmo terreno onde quase todos foram ao chão. Em meio aos rostos sofridos dos pilotos estava Everton, um espectador local que enfrentou toda subida da montanha para acompanhar a largada. Ele relatou:

[A pista é] bastante técnica e travada, mas estou vendo que galera está se divertindo muito […]. Isso aqui é só para quem tem a técnica e gosta mesmo de estar aqui.
– Everton, espectador.

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Everton em entrevista com Bortoletto

A fadiga estava tomando conta de todos. Alguns já sentiam a falta de energia depois de seis horas de atividade na chuva. A mata atlântica se mostrava cada vez mais dura com suas plantas cheias de espinhos e insetos peçonhentos. Era hora da última especial do dia. Esta, em particular tinha um drop capcioso. A placa que indicava muito perigo dava mais medo do que o obstáculo em si, dada a condição psicológica quase esgotada. Quem havia treinado neste obstáculo traziam suas impressões à todos. O cuidado que estes atletas tiveram em repassar as informações e detalhes, reforçava a situação delicada que o drop apresentava. Porém, rumores chegaram ao alto da montanha sobre o cancelamento deste trecho.

Patrícia Loureiro comparou a etapa de Tiradentes com Paraty e revelou a dificuldade que esta última exigiu dos pilotos:

Eu acho que Tiradentes […] estava um pouco mais fácil […] estava mais gostoso de pilotar a bike. Aqui está extremamente liso, muita lama mesmo […]. Está bem pesado […] e chovendo ‘pra’ caramba.
– Patrícia Loureiro, atleta.

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Patricia Loureiro em entrevista com Bortoletto – Parte 1

Uma tendência vem se consolidando nas provas de enduro do XTerra: as chamadas “super especiais”. São mais de 10 minutos de segmento cronometrado que exige o máximo do atleta. Tudo pode acontecer em um trecho extenso. Thiago Velardi introduziu essa característica ao circuito na segunda etapa em Tiradentes. Nela os pilotos aceleraram por toda a crista da Serra de São José e depois desceram em direção à cidade. Em Paraty não foi diferente. Domingo os atletas despencaram da Serra do Mar em uma super especial em direção ao oceano. Patrícia Loureiro completa: “Em Tiradentes eu terminei e não estava nem cansada. Nesta, estou destruída”.

Mais uma vez a preocupação quanto aos pneus vieram à tona. Rumores indicavam que as condições mesmo molhadas, seriam bem diferentes daquelas enfrentadas no primeiro dia. A pressão atmosférica despencou de 10010 hpa para 990 hpa. E o resultado foi chuva durante madrugada toda.

Ir para a última especial era quase que um alívio. Não tinha muito que fazer para tentar recuperar o tempo perdido. A concentração naquele momento era terminar logo, se aquecer, comer e cuidar da bike. Tinha muito ainda para ser feito nos bastidores.

A concentração dos atletas para o deslocamento de 12 km para a E5 foi feita na arena do evento na Praia do Pontal. Vários atletas largaram com problemas mecânicos que não puderam ser solucionados durante o tempo livre. Neste momento o espírito de camaradagem do enduro se destaca de outras modalidades do ciclismo: a cooperação entre atletas nos momentos mais críticos. Caio Mourão, que liderava a categoria júnior, largou sem corrente e cambio traseiro. Mesmo assim ele foi ajudado pelos demais atletas que se revezavam o empurrando montanha acima. Essa atitude foi muito, muito legal.

Apesar de todas as dificuldades, as desistências foram mínimas. O grupo seguiu rumo à Serra do Mar deixando o litoral cada vez mais distante. A Pedra da Macela com seus 1.840 metros de altitude se revelava quando as nuvens davam uma brecha, indicando que o melhor da modalidade estava por vir. E veio.

Estou passando até mal. Para mim foi uma vitória conseguir subir até aqui pedalando […]. Tem que estar muito preparado para isso. Isso aí não é para qualquer um não. Tenho que me preparar muito ainda. Já estou melhorando, eu não subia isso aqui e subi pedalando. E essa subida na chegada? Essa subida vai ferver o radiador de todo mundo.
– Alex “Javali”, atleta.  Declarou ao abandonar a prova na investida final do descolamento para a E5

Uma trilha com inúmeros switchbacks, riachos, raízes, pedras e muito mais foi o cardápio perfeito. Não chovia. Por quase uma hora, os competidores caminharam pela mata até chegar em um descampado onde era possível ver a cidade e o mar. O visual de um aeródromo mostrava a magnitude de onde todos foram parar. Era contagiante a energia e os corpos cansados foram revitalizados com a energia do lugar.

Estava por vir uma das melhores pistas de enduro de todos os tempos em uma competição brasileira. Tão grandiosa quanto à famosa Especial 5 de Monte Verde com seu início no cume do Chapéu do Bispo.

Se emoção tem espaço para aflorar, esta veio intensa quando dois competidores tiveram problemas de freio logo antes da largada. Como resolver? Desistir? Jamais! Com muita criatividade e espírito McGyver, os problemas foram superados e todos puderam largar na montanha em um segmento onde o coração saiu pela boca. Mais de 10 minutos fizeram da trilha uma verdadeira história com começo, meio e fim. Alguns tombos e reviravoltas mudaram as posições no ranking da etapa.

Fazendo por merecer, o mineiro Leonardo Mattioli se consagrou campeão seguido por Diego Knob e Julio Giani. Na categoria feminina, Patrícia Loureiro levou a melhor seguida por Barbara Jechow e Lucy Onodera. Por ser a edição de encerramento do ano, foram definidos os campeões da temporada:

MTB Enduro Profissional
1 Leonardo Mattioli 300
2 Julio Giani Basbosa 262
3 Thiago da Silva Farinelle 151
4 Bernado Goldstein 124
MTB Enduro Feminino
1 Patrícia Loureiro 300
2 Suelen Couto 235
3 Lucy Satsuki Onodera 172
MTB Enduro Junior
1 Caio Mourão Gonçalves 200
2 Henrique Pinheiro Sawcsuk 100
MTB Enduro Amador
1 Allan Barbosa Chaves 269
2 Bruno Sanglard Ferreira da Silva 213
3 Luiz Antonio Nepumoceno 143
4 Mateus Gonçalves Costa 138
5 Alex Nascimento 118
MTB Enduro Master A
1 Lucas Henrique Vieira 234
2 Tiago De Melo Guedes 174
3 Fernando Simioni Neves 163
4 Luiz Guilherme Pretti 100
5 Ricardo Teixeira 90
MTB Enduro Master B
1 Rafael Calhau 221
2 Daniel Mialich 214
3 Matheus Vasconcelos 124
4 Rafael Rosa 100
5 Thiago Burgers 100
MTB Enduro Master C
1 Raphael Ometto 231
2 Andre Bortoletto 192
3 Juliano Florence de Oliveira 190
4 Caio Bennati Salerno 159
5 Paulo César 133
MTB Enduro Senior
1 Luciano Lancelotti de Jesus 290
2 Marcos Dallaval 246
3 Eduardo José Souto Soares 100
4 Carlos Henrique 90
5 Leopoldo Anunciatto 90

O número de competidores e entusiastas aumenta a cada ano e competições como essa são o combustível perfeito para aquecer o mercado. Mal terminou o ano e escutamos rumores de novas equipes sendo formadas, investimentos e movimentação de atletas rumo à profissionalização. Que 2018 seja um ano promissor para todos.